Durante muito tempo, a área de Tecnologia da Informação foi vista principalmente como o setor chamado quando alguma coisa parava de funcionar.
O computador ficou lento. A senha não funciona. A impressora está desconectada. O sistema saiu do ar.
Resolver esses problemas continua sendo uma responsabilidade importante da TI. Afinal, nenhuma empresa consegue trabalhar adequadamente quando sua estrutura tecnológica falha.
Mas limitar a TI ao suporte técnico é enxergar apenas a parte mais visível do trabalho.
Por trás de cada equipamento funcionando, de cada acesso protegido e de cada informação disponível, existem decisões que influenciam produtividade, segurança, custos e continuidade do negócio.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas:
A TI está resolvendo os chamados?
Talvez a pergunta mais importante seja:
A TI está ajudando a empresa a trabalhar melhor e tomar decisões mais seguras?
1. O suporte é importante, mas não representa toda a TI
O suporte técnico está presente na rotina das empresas porque os problemas acontecem.
Usuários precisam de orientação, equipamentos apresentam falhas, sistemas exigem ajustes e acessos precisam ser liberados. Quando esse atendimento não funciona, a operação sente rapidamente os efeitos.
Mas o suporte é apenas uma das responsabilidades da área.
Uma TI bem estruturada também precisa cuidar de:
- infraestrutura;
- redes e conectividade;
- segurança da informação;
- gestão de acessos;
- inventário de equipamentos;
- contratos e fornecedores;
- backup e recuperação;
- disponibilidade dos sistemas;
- documentação;
- automação;
- planejamento de capacidade;
- continuidade das operações.
Grande parte desse trabalho acontece antes de o problema chegar ao usuário.
Quando a TI atua apenas depois da falha, ela permanece presa ao modo reativo. Resolve o chamado de hoje, mas nem sempre consegue eliminar a causa que produzirá os chamados de amanhã.
Suporte resolve o incidente. Gestão de TI procura entender por que ele aconteceu e como evitar sua repetição.
Essa visão mais ampla está alinhada à ISO/IEC 20000-1, que trata a gestão de serviços como um sistema que envolve planejamento, desenho, transição, entrega e melhoria contínua. Portanto, manter a tecnologia funcionando é apenas uma parte de um processo maior de geração de valor por meio dos serviços de TI.[1]
2. A melhor TI nem sempre é a mais visível
Existe um paradoxo na área de tecnologia.
Quando tudo funciona, poucas pessoas percebem o trabalho realizado. Quando alguma coisa falha, todos percebem imediatamente.
Um backup executado corretamente não aparece na rotina dos usuários. Uma restauração que não funciona durante uma emergência pode comprometer toda a empresa.
Uma política adequada de acessos passa despercebida. Uma conta indevida ou sem proteção pode abrir espaço para vazamento de informações, fraude ou paralisação.
Uma rede monitorada raramente recebe atenção. Uma interrupção no momento mais importante do dia afeta vendas, atendimento e produtividade.
Por isso, avaliar a TI apenas pela quantidade de chamados encerrados oferece uma visão incompleta.
Também é necessário observar:
- quantos problemas foram evitados;
- quanto tempo de indisponibilidade foi reduzido;
- quais riscos foram identificados;
- quais atividades foram automatizadas;
- quanto retrabalho foi eliminado;
- quais informações passaram a apoiar decisões;
- quanto conhecimento deixou de depender da memória de uma pessoa.
O valor da TI não aparece somente quando ela conserta alguma coisa. Muitas vezes, aparece justamente quando o problema não acontece.
O NIST Cybersecurity Framework 2.0 reforça essa atuação preventiva ao organizar a gestão de riscos em seis funções contínuas: governar, identificar, proteger, detectar, responder e recuperar. Isso mostra que a segurança e a continuidade não dependem apenas da reação a incidentes. Elas começam na identificação dos riscos, na proteção dos recursos e no acompanhamento constante do ambiente.[2]
3. Tecnologia também é uma decisão de negócio
Comprar computadores, contratar sistemas ou trocar um fornecedor pode parecer uma decisão exclusivamente técnica.
Na prática, essas escolhas afetam orçamento, produtividade, segurança e capacidade de crescimento.
Um sistema inadequado pode criar etapas desnecessárias e aumentar o retrabalho. Um contrato mal dimensionado pode gerar custos que permanecem escondidos por anos. Uma estrutura sem capacidade de expansão pode funcionar hoje e se tornar um obstáculo amanhã.
A TI precisa compreender o contexto do negócio antes de recomendar uma solução.
Isso envolve perguntas simples, mas importantes:
- Qual problema precisa ser resolvido?
- Quem será afetado?
- Qual é o custo atual do problema?
- A solução poderá acompanhar o crescimento da empresa?
- Existem riscos de segurança ou dependência de fornecedor?
- Quem será responsável pela operação e pela manutenção?
- Como o resultado será medido?
A melhor solução técnica não é necessariamente a mais cara, a mais conhecida ou a que possui mais recursos.
É aquela que atende à necessidade real, pode ser sustentada pela empresa e produz um resultado que faça sentido para a operação.
Tecnologia sem contexto pode se transformar em custo. Tecnologia ligada ao negócio pode se transformar em capacidade.
Essa relação entre tecnologia e objetivos empresariais está presente no COBIT 2019. O modelo propõe que a informação e a tecnologia sejam governadas e administradas considerando as necessidades da organização, a geração de valor, os riscos e os recursos disponíveis.[3]
Isso significa que uma decisão tecnológica não deveria ser avaliada somente pelo funcionamento técnico. Também é necessário considerar o resultado que ela entrega para a empresa.
4. Da reação para a prevenção
Uma área de TI sobrecarregada costuma passar boa parte do tempo reagindo.
Cada novo problema interrompe o trabalho planejado. A urgência ocupa o lugar da prioridade. A equipe resolve o efeito, segue para o próximo chamado e raramente encontra tempo para investigar a causa.
Esse cenário cria um ciclo difícil:
- Um problema acontece.
- A equipe resolve rapidamente.
- A causa não é eliminada.
- O problema volta.
- O volume de chamados aumenta.
- A equipe fica ainda mais ocupada.
Romper esse ciclo exige organização.
Registrar os chamados permite identificar reincidências. Manter um inventário ajuda a planejar substituições. Documentar ambientes reduz a dependência de pessoas específicas. Monitorar serviços permite agir antes da indisponibilidade. Testar backups mostra se a empresa realmente conseguirá recuperar suas informações.
Não se trata de eliminar o suporte.
Trata-se de utilizar o conhecimento produzido pelo suporte para melhorar todo o ambiente.
Quando a TI começa a analisar causas, padrões e impactos, ela deixa de atuar somente como um serviço de emergência e passa a contribuir para a prevenção.
A ISO/IEC 20000-1 estabelece a melhoria contínua como parte da gestão de serviços.[1] O NIST Cybersecurity Framework 2.0 também orienta que as organizações utilizem as lições aprendidas durante as operações e os incidentes para melhorar seus processos de proteção, resposta e recuperação.[2]
Portanto, um chamado não deveria terminar apenas com a solução imediata. Sempre que possível, ele também deveria produzir conhecimento para reduzir a possibilidade de repetição.
5. O papel da TI nas decisões da empresa
Se a tecnologia influencia praticamente todas as áreas, a TI não deveria participar somente da etapa final dos projetos.
Quando ela é envolvida apenas depois que uma solução já foi escolhida, muitas decisões importantes podem ter sido tomadas sem avaliar integração, segurança, capacidade, suporte, custos futuros e proteção dos dados.
A participação antecipada da TI ajuda a identificar perguntas que nem sempre são consideradas no início:
- A solução conversa com os sistemas existentes?
- Os dados podem ser exportados?
- Como os usuários serão autenticados?
- Existe registro das atividades realizadas?
- O fornecedor oferece suporte adequado?
- O serviço possui plano de continuidade?
- O contrato permite crescimento ou redução?
- O que acontece se a empresa decidir trocar de plataforma?
Essas perguntas não servem para dificultar projetos.
Servem para evitar que uma decisão aparentemente simples se transforme em um problema operacional, financeiro ou de segurança.
O COBIT 2019 reforça que a governança da informação e da tecnologia deve estar relacionada aos objetivos da organização.[3] O NIST Cybersecurity Framework 2.0 também destaca a importância da governança, da definição de responsabilidades e do alinhamento entre a gestão dos riscos tecnológicos e os riscos empresariais.[2]
Para contribuir dessa forma, a própria TI também precisa mudar sua comunicação.
Não basta falar sobre servidores, licenças, armazenamento ou disponibilidade. É necessário explicar como cada decisão afeta tempo, custo, risco, produtividade e continuidade.
Quando a TI entende o negócio e o negócio entende a TI, a conversa deixa de ser apenas técnica.
Conclusão
A TI continuará atendendo usuários, configurando equipamentos e resolvendo incidentes. Essas atividades são necessárias e fazem parte do trabalho.
O problema aparece quando a empresa acredita que esse é o limite da contribuição da área.
A mesma equipe que troca uma senha também pode identificar riscos de acesso. A equipe que corrige uma falha pode analisar sua causa. Quem mantém os sistemas funcionando também pode encontrar desperdícios, integrar informações, automatizar atividades e apoiar decisões.
Isso exige uma mudança de percepção dos dois lados.
A empresa precisa envolver a TI antes das decisões, e não somente depois dos problemas. A TI, por sua vez, precisa compreender a operação, comunicar impactos e demonstrar resultados além do número de chamados encerrados.
Talvez a questão não seja se a sua empresa possui suporte de TI.
A provocação é outra:
A sua TI está apenas mantendo a empresa funcionando ou também está ajudando a decidir para onde ela pode avançar?
Referências
- ISO. ISO/IEC 20000-1:2018 - Information technology - Service management - Part 1: Service management system requirements
- NIST. The NIST Cybersecurity Framework 2.0, 2024
- ISACA. COBIT 2019 - Governance and Management of Enterprise Information and Technology
Nota de transparência: este artigo contou com apoio de inteligência artificial na pesquisa, organização e revisão editorial. As fontes foram consultadas para fundamentar os conceitos de gestão de serviços, governança de tecnologia e segurança da informação. A análise, a validação e a responsabilidade final pelo conteúdo são do autor.
